28 de março de 2011

Ao sul da fronteira

"Ao sul da fronteira" tem por temática o óbvio. Nada de teorias conspiratórias, como em "JFK" (1991). Nem biografias ficcionalizadas, como "Nixon" (1995) ou "W." (2008). O quarto documentário de Oliver Stone trata da América Latina. Parte de sua situação histórica: concentração de renda, privilégio, expropriação, truculência; de minorias sociais e raciais no topo da pirâmide social, cuja base são milhões de pobres, semianalfabetos, desdentados, racial e economicamente marginalizados. Os governos norte-americanos, interessados no estado das coisas, promovem e sustentam os regimes políticos da desigualdade, na medida em que deles se beneficiam. Daí a participação, ostensiva ou de bastidor, em todo caso direta, da política externa americana na tradição golpista do continente: Brasil-1964, Chile-73, Argentina-76, Venezuela-2002 etc. Tudo isso como lapidarmente descrito em "As veias abertas da América Latina" (Eduardo Galeano), e sintetizado nos 102 minutos do filme, através das falas de entrevistados e a narração de Stone.

Tudo isso já sabemos, nós sul-americanos. Stone justifica o seu documentário apresentando extratos de reportagens e telejornais da grande imprensa dos EUA. São comentários superficiais, tendenciosos, estridentes. Mas nada tolos, pois serviram à linha oficial da administração Bush (2001-09) e construíram, dia após dia, o apoio dos cidadãos americanos aos senhores da guerra. Hugo Chávez é tachado de ditador, comparado a Saddam Hussein e até Hitler, e o presidente da Bolívia Evo Morales acusado de viciado e traficante de drogas. A América do Sul avermelhada da última década retratada como um novo eixo de ameaça aos interesses do Tio Sam.
Assim, contrapondo-se à "opinião pública" instituída pelas redes acríticas norte-americanas, o documentário concede a voz aos sem-voz e vai entrevistar Chávez, Evo, o casal Kirchner (Argentina), Fernando Lugo (Paraguai), Lula, Rafael Correa (Equador) e, finalmente, o irmão de Fidel, Raúl Castro, que está no poder em Cuba desde 2008. O filme curiosamente finaliza na mesma Cuba em que Oliver realizou o documentário "Comandante" (2003), numa rica entrevista com o líder revolucionário cubano. De todos os presidentes sul-americanos, colhe também o óbvio: assumiram em tempos de crise, são líderes populares contrários aos interesses do FMI, priorizam políticas sociais de transferência de renda e democratização, tem bases populares, enfrentam cerrada oposição de grupos outrora no poder, mas que ainda mantêm controle sobre a grande imprensa. Uns governantes mais incisivos no discurso anti-imperialista, como Chávez e Evo ("socialismo do século 21"), outros menos, como Lula e Kirchner, mas todos unidos ao redor da construção uma nova governança sul-americana, que faça frente à secular hegemonia dos EUA.
Não se discute a ausência de contraditório, pois só é dada a palavra aos presidentes. Afinal, para os opositores de Chávez, Evo, Correa, Lula etc, os espaços de discurso já são dominados por uma oposição mais ou menos radicalizada, propensa a aventuras golpistas dada a oportunidade. O problema não está na tomada de partido, neste filme-panfleto, mas, na verdade, na proposta. Porque, ao cabo, "Ao sul da fronteira" se resume a uma panorâmica, toma a América do Sul de cima, numa espécie de turismo militante. O tom laudatório, reforçado por uma trilha que beira o ufanismo, mais enfraquece do que fortalece a sua tomada de posição. O espectador mais crítico vai desconfiar de tantas seqüências com Chávez cercado por admiradores uniformizados com a camisa do partido, e de perguntas "direcionadas" que contornam as questões sensíveis de cada governante. E aí Oliver Stone corre o risco de estar pregando para os já-convertidos, num procedimento evangelizador parecido com os docs de Michael Moore. Não há análise sobre encadeamento de causas e razões, e menos ainda imersão na multidão que é o cerne desse processo constituinte de uma nova América Latina. O diretor limita-se a ouvir os cabeças de cada país, sem perguntas difíceis.
Sem embargo, é curioso como "Ao sul da fronteira" adquire pertinência entre públicos brasileiros. Aqui também se entroniza uma grande imprensa hostil à transformação geopolítica de nosso continente. Jornalões brasileiros reagem, amiúde com raiva e ressentimento, ao sucesso político, social e econômico dos governos de esquerda. Batem nas mesmas teclas: ameaças à liberdade de imprensa, assistencialismo eleitoreiro, autoritarismo das lideranças, quando os mesmos veículos defenderam e promoveram ditaduras em décadas recentes. Não será pequena a porcentagem de espectadores brasileiros a se deparar pela primeira vez com discursos pró-Chávez ou pró-Evo.
É preciso pedir a licença para esta crítica conteudística, uma vez que, como linguagem, o documentário exibe pouca inspiração, mas existem contextos em que uma obra de arte se justifica simplesmente pela singela tarefa de declarar: o rei está nu.
 
Resenha de Bruno Cava. Disponível em http://quadradodosloucos.blogspot.com/2010/06/critica-ao-sul-da-fronteira-oliver.html
 
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