A Última Legião

Desde que vi nos escaparates das livrarias o título “A Última Legião“:...que fiquei curioso, já que este período da História é precisamente um dos que mais me interessam. Por várias razões adiei a compra até que o livro desapareceu das livrarias, por isso, quando tive recentemente oportunidade de ver o DVD do livro… Não perdi a ocasião (sim, a ocasião perguiçosa de “ler” em hora e meia um livro…) e lá vi a coisa. E de uma “coisa” realmente se trata aqui… Raras vezes encontrei tantos erros e tão flagrantes num filme histórico… Algumas, mas nem todas, radicam em fragilidades do próprio livro do italiano Valerio Manfredi. Este “Manfredi” aparece nas bibliografia como “professor de arqueologia” na Universidade Luigi Bocconi de Milão, mas procurando AQUI entre os seus docentes… Não consta tal nome, embora NESTE artigo da “infiável” (?) Wikipedia encontremos essa referência… A propósito, já vos disse que sou doutorado em Física Quântica pela Universidade Beargh-Boirg de Ulun Bator? Seja ou não realmente professor, ou tenha já deixado de o ser entretanto, o certo é que Manfredi encharcou o seu livro dos erros cujos ecos encontramos agora no filme de Doug Lefler…

A história decorre em 476 a.D. e narra os acontecimentos históricos ocorridos em torno do jovem Romulus Augustus, aliás, logo o… primeiro erro histórico do filme! Rómulo assume o trono ao mesmo tempo que Odoacro e o seu lugar-tenente Wulfila massacram a sua família e capturam Rómulo levando-o juntamente com Ambrosinus, o seu mestre, para a ilha de Capri (pois!). Com a promessa de auxílio bizantina, Aurelius, um general romano, tenta resgatar Rómulo, com o apoio da mercenária bizantina Mira, depois, a acção desenrola-se a caminho da Bretanha (Grã-Bretanha) onde a história assume um… rumo mais ou menos inesperado.

1. O Nome do Imperador
Embora a personagem principal tenha o nome de “Romulus Augustus”, o seu nome efectivo era diferente…: Romulus Augustulus. Talvez menos eficiente, no que concerne à sonoriedade e logo, ao sucesso do livro e do filme, mas certamente menos historicamente correcto.

2. O Terço de Itália
No filme, Odoacro surje logo numa das primeiras cenas exigindo ao imperador Orestes (outro erro, este Flavius Orestes nunca foi imperador…) a entrega de 1/3 da Itália, algo a que este reage com espanto e consternação. Ora, na verdade, não foi Odoacro que exigiu este terço, mas Orestes quem o ofereceu a troco do apoio dos 30 mil bárbaros foederati comandados por Orestes contra o imperador reinante no Ocidente, de nome Julius Nepos… Orestes procurou enganar os bárbaros entregando-lhes pedaços de terras estéreis nos Apeninos, mas após derrotarem Nepos em 475, o qual lutou na Dalmatia até 480 (ou seja, uns bons cinco após a queda do Império do Ocidente).

3. Orestes “imperador”
Flavius Orestes foi nomeado Magister militum e Patricius pelo imperador Nepos, revoltando-se depois, mas nunca vestiu a púrpura, isto é, nunca assumiu o título imperador, como surge no filme, tendo preferido após a sua revolta coroar o seu filho como último imperador de Roma

4. Roma, a “Capital” do Império Romano do Ocidente
Embora em “The Last Legion“, Roma surja como a capital do Império Romano do Ocidente, de facto, desde 402 d.C. que a capital fora transferida para Ravena, estando a “Cidade Invicta” em plena decadência nessa época, e não a próspera cidade que aparece delineada no filme…

5. Os romanos do “lado errado da fronteira”
Na cena em que o grupo liderado por Aurelius e escoltando Rómulo sobre às muralhas do “Muro de Adriano” observam antigos legionários romanos aproximando-se dos muros… Ora Aurelius e os seus sobem pelo sul, depois do desembarque e estes legionários vêem de… norte! Ora a norte do “Muro de Adriano” estavam os Pictos, e embora de facto fosse comum que os legionários romanos destacados nas fronteiras estabelecessem casa e família junto das muralhas, não o faziam obviamente do lado de lá das mesmas! Porque seriam estes legionários uma excepção!? E por outro lado e last but not least… A Bretanha foi abandonada pelos romanos em 401 d.C., mesmo se estes “romanos” tivessem ficado para trás, teriam na época (476 d.C.) uns valentes 90 a 100 anos de idade! Ou seja… Seriam de utilidade guerreira muito marginal…

6. Os legionários destacados para a defesa do “Muro de Adriano”
No século V d.C. a guarda das muralhas das fronteiras do Império estava entregue não aos “legionários”, termo que aliás tinha caído em desuso e que fora substituído como designação das forças mais ofensivas do Império como Comitatenses. As forças destas guarnições eram conhecidas como Limitanei e eram tropas com armamento muito ligeiro nada de semelhante aos legionários “convencionais” que aparecem no filme…

7. A Entrega das Insígnias a Bizâncio
Embora no filme, Odoacro pareça empenhado em obter o reconhecimento de Imperador Zeno do Oriente, na verdade omite o detalhe mais importante destas relações… É que pouco depois da tomada do poder, Odoacro renuncia ao título de imperador e envia para Constatinopla as insígnias imperiais. Este pequeno “detalhe”, é omitido intencionalmente de forma a manter Rómulo como um imperador com algo para onde voltar…

8. Lucullus e não a Ilha de Capri, como local de exílio de Rómulo
Odoacro ordena que Wulfila escolte Rómulo até à Ilha de Capri, onde este deve viver em exílio até ao fim dos seus dias. Bom, tudo bem. De facto, Odoacro teve a sábia atitude de remeter Rómulo para o exílio, em vez de fazer dele um mártir, o que afastaria muitos romanos de que o bárbaro precisaria para administrar o recentemente conquistado Império. Mas não foi exilado para Capri, mas para a villa de Lucullus, nos arredores de Nápoles. Aqui Rómulo viria a morrer de velho… Não algures na Bretanha…

9. A Batalha de “Mount Badon”
No filme, uma das últimas cenas mostra a batalha de “Mount Badon”, que teria ocorrido por volta de 500 d.C. e onde Artur teria vencidos os Anglo-Saxões… Não Wortigen, que aparece no filme como se fosse um “germânico”… E é Artur, nenhum general romano, nem romanos, mas bretões, ainda que alguns possam ter – se é que esta batalha ocorreu mesmo – servido no exército romano, como Limitanei.

10. A “Linhagem de César”
No filme, o imperador Tibério surge como descendente da linhagem de César. Ora, nada mais falso. O próprio Augusto, já era filho adoptivo de César, e portanto, não era da sua linhagem, e Tibério, por sua vez, também era filho adoptivo de Augusto! Por isso, linhagem de César, que supostamente teria tido continuidade até Rómulo Augustulo de facto, nunca existiu!

11. A Ilha de Capri de Tibério
E aquilo que se passava em Capri, naquela Villa que de facto Tibério aqui construiu era de muito má memória, e nada daquela “aura nobilitante” que o filme faz questão de erguer… Aliás, na época a ilha era famosa pelas orgias que aqui organizava:
“También disfrutaba con jóvenes y adultos de ambos sexos, con los que se solazaba asistiendo a un espectáculo llamado spintries, que consistía en una unión sexual a tres (muchachas y jóvenes libertinos, revueltos), que tenían que actuar hasta que el tirano se desahogaba. Para excitarse él y los que actuaban para él, tenía una apropiada biblioteca con obras de una célebre poetisa llamada Elefántide de Mileto, y de otros autores como Hermógenes de Tarsia o Filene, todas ellas hijas de un mismo motivo y un estilo especialmente dirigido a la excitación de los sentidos. Pero si los textos sicalípticos ocupaban la biblioteca de Tiberio en Capri, también necesitaba, y buscaba, cuadros de la misma temática que acompañaran a sus escenas orgiásticas” (ver AQUI).

12. O Bárbaro que sabia ler (!?)
Wulfila, o lugar-tenente de Odocro consegue ler a inscrição na base da estátua de César, na ilha de Capri. Espera. Um oficial germânico a ser capaz de ler? Latim? Pois sim… Seria mais credível colocar Wulfila a declamar Sócrates (o outro) ou a tocar piano do que vê-lo a ler. Os bárbaros germânicos que invadiram o Império nessa época não sabiam ler e confiavam nos romanos que recrutavam para a sua administração civil para essa tarefa. Entre estes, Boécio, o servidor de Teodorico, o rei dos Ostrogodos será o mais conhecido.

13. Os soldados “romanos”
Embora exista a crença generalizada que o exército romano do século V d.C. era formado essencialmente por bárbaros “romanizados”, contudo, estudos recentes indicam que afinal de contas, no exército romano desta época o número de bárbaros não era afinal assim tão dominante… De facto, mesmo entre os auxilia palatina que cumpriam missões de guarda na capital só tinham um quinto de bárbaros romanizados. De facto, o exército romano do começo do Império poderia incluir uma percentagem superior de bárbaros… De qualquer modo, entre os soldados de Aurelius não se vê um único germânico… E essa total ausência é de estranhar (embora surja de facto um africano).

14. A “Legio Nona Invicta”
A “Legio Nona Invicta” do general Aurelius deveria corresponder à “Legio IX”… “Hispana”! Uma legião recrutada na Hispânia pelo próprio Júlio César em 58 d.C. e incluindo… bastantes lusitanos… É verdade que a Legio IX serviu no actual Reino Unido, mais exactamente em Eburacum (York), mas foi extinta no reinado do saudoso Marco Auréli, no século II d.C.! Curiosamente, este legião continua a existir nos dias de hoje, como se poder ver… AQUI! E não era “Invicta”, coisa nenhuma, mas apenas… “Hispana”, claro!

15. A “espada de César”
Os romanos nunca tiveram uma tradição de “objectos mágicos”… Não houve nenhuma espada mágica de César, nem lendas sobre a dita. Aliás, o próprio conceito em si é mais céltico do que romano, sendo o objecto semelhante mais famoso a “Excalibur” que serve aqui de protótipo a mais esta invenção de Manfredi.

16. O duplo erro da Coroação de Rómulo
A coroação de Rómulo não teve lugar nem em Roma, nem em 460 d.C.! Falhanço em toda a linha no que respeita a fidelidade histórica! Vá lá… Foi coroado e pelo menos aí Manfredi acertou! A coroação teve lugar em 476 e na então capital romana de Ravena…

Resenha de Clavis Prophetarum

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