Sherlock Holmes

A única coisa do Sherlock Holmes que eu sabia é que ele costuma falar “elementar, meu caro Watson”. Como essas quatro palavras não foram usadas em nenhum momento nos 128 minutos da projeção, devo deduzir que Guy Ritchie não foi fiel ao personagem. Tá, para falar a verdade, só fiz esse parágrafo porque não estava conseguindo começar essa resenha. Como o segundo parágrafo é da sinopse, agora posso relaxar um pouco. Pelo menos até o terceiro.
Sherlock Holmes é um detetive particular na Inglaterra de outrora que costuma ser chamado para resolver mistérios e crimes que a Scotland Yard pena para resolver. Ou seja, ele é tremendão. E costuma ser ajudado pelo seu parceiro, o médico Watson. Agora será que ele é tremendão o suficiente para prender um sujeito que parece ter poderes paranormais?
É engraçado, mas eu nunca tinha reparado como o Robert Downey Jr. é engraçado. Assim como em Homem de Ferro, ele carrega o filme nas costas, com seu jeitão canastrão e absurdo de contar piadas como se elas não fossem piadas.
Fato: Sherlock Holmes é deveras engraçado e divertido e tinha tudo para ser um filme excelente. Porém, ele não é engraçado o suficiente para abrir mão de história. E aí está o problema: em um maledeto roteiro que parece ter sido escrito nas coxas por pessoas alimentando apenas seu desejo de recolher o pagamento. E cinema não pode ser feito nas coxas, especialmente o roteiro.
Tudo bem, estou disposto a relevar o fato de que isso é basicamente um Scooby-Doo com orçamento bombado – e talvez a série do cachorro emaconhado tenha sido mesmo inspirada pelos livros de Arthur Conan Doyle – mas convenhamos, isso não funciona mais num filme para adultos. Especialmente com um monte de truquinhos de roteiro que parecem enganar apenas aos próprios roteiristas.
Por exemplo, em determinado momento, Watson comenta com Xerlóquio Lares como este último nunca divide suas deduções com ele. Essa é a chave para, no confronto final com o vilão, Sherlock demonstrar que já estava sabendo de absolutamente tudo durante todo o tempo. Ora pois, eles poderiam até ter deixado para revelar tudo no final, mas dizer no final que o personagem tinha percebido todas as evidências desde o início simplesmente não faz sentido no século XXI. Ele poderia ter comentado as evidências, mas só conseguir montar o quebra-cabeças próximo ao final. Isso sim seria crível.
E olha que não estou falando do inútil personagem da Rachel McAdams, que só serve para preencher o requisito de donzela em perigo. E prometo que não vou mencionar o artifício Batman Begins de sugerir a ameaça do vilão mais famoso do herói na última cena como gancho para continuação.
Dessa forma, se você não espera nada além de um Scooby-Doo para crianças mais velhas, pode se divertir com Sherlock Holmes. Até porque ele é, sim, divertido. Porém, não espere por nada autoral ou realmente criativo como os filmes anteriores de Guy Ritchie. Este é o típico filme de produtor, feito apenas para arrecadar dinheiro. Isso nem sempre é ruim, mas nesse caso – e com esse time – poderia e deveria ser muito melhor.

Texto de Carlos Eduardo Corrales disponível em http://www.delfos.jor.br/conteudos/index_interna.php?id=6184&id_secao=1&id_subsecao=2

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